No espelho uma criança
22 janeiro, 2012
Abraçado ao meu gato sou um muro
Forma vazia que se desmorona
Anjo sem voz comendo pães duros
Disfarçando minha ladra alma
Vivo atrás da porta e muito me dói
- Como posso gritar um tal silêncio?
O trem não leva deus nem tem trilhos.
Ando só neste mal e sem remédio.
Em teu adeus caí paralisado.
E me converterei em pedra, não duvido
Serei a base de teu templo consagrado
Diante do espelho vejo apenas uma criança
Tua ausência em minha alma constrói um mundo
Vives dentro de mim quando não vivo
(Tradução de “En el espejo un niño, de Alejandro Jodorowsky)
a um amigo que se foi, que me foi.
19 dezembro, 2011
oh “sombra do passado”,
tua redundância, lugar-comum
onde me queres por escrito
para lápide assinalada, para farol do deserto
no descampado da página
da relva da pauta
brotaste, cemitérico obelisco:
teu nome, tua estrela, tua cruz inscrita
projetados para cima
, de onde não vieste
, lá para onde não te sabes
o agora
sombreado no abraço da terra.
quisera decompor-me
também
mas sobre ti.
ser visita assim, em conformidade
com o que agora te fizeste:
um para sempre
cama do silêncio.
todo certeza.
todo espera:
porque te calaram a voz,
ensinaste as saudades a cantar.
credo humaníssimo
8 outubro, 2011
fazer da música armadura.
do destino, um lugar onde se deitar.
estar pronto para o infinito:
ser vazio
plenamente
primaverar-te invérnico
no calendário já sem dias por contar:
abriste aquele livro da tua juventude
e a folha seca
segredada
ali
ainda marcava a página do poema
que traduzia teu amor
embora esfarelada
sem título (ou depois desse dia)
15 setembro, 2011
com uma cerveja em lata
balançando numa das mãos
caminhava reflexivo
naquele horário urbano
onde os poucos são chamados de ninguém.
ia na rua, ele.
um par entre os meliantes.
(também implícito)
1 setembro, 2011
: ama.
eis o imperativo impulso, segredo nominado
a te-carregar-te
se o amanhã desejas possível
em ti,
(se o sentes demasiado)
: ama.
há que dourar o insustentável
com este disparate literário – sombra de Deus
a deitar-te
no silêncio
no sabes que não não sabes que
: ama.
pergunta e resposta
nada tudo. vasto determinado mudo.
: ama
solitário
com teu nome
te-começa-te como a estrada:
ama.